E o resto é um bip de uma máquina

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A máquina soltava um bip. De tempos em tempo um bip era emitido dizendo que ainda estava vivo. Um bip que me prendia a esta terra como um grilhão elétrico. Um bip que segurava minha mão e dizia: Não vá!

Ela era imperativa, como as máquinas são. Ela era de ferro, como também são as correntes.

A sala era escura. Ainda podia sentir isso, podia perceber, que além de escura, só eu tinha ainda alguma carne para se chamar de vivo naquele quadrado que envolvia tubos, e plásticos. E eu e aquele bip interminável.

Por que não me deixam ir?

Estava, aqui. Sozinho. E uma família que fugia do luto. Ainda não está morto, não fiquemos tristes então. Vai melhorar, é só deixar lá. Ele está vivo! A máquina garante isso.

Eu já tinha escrito a minha história, já tinha elaborado meu último parágrafo. Já tinha escrito Fim, e apertando a pena em um ponto!

Mas minha mão ficou presa naquele ponto. Não me era possível tirar a mão do papel, nem tão pouco tirar da minha mão a pena da minha vida.

Já não fazia sentido se tinha sido homem ou mulher. Macaco, cachorro ou algum bicho. O que ficou para trás era história. Contos de um livro que já não me interessava mais.

Dizem que vemos toda a vida quando chega nossa hora. É mentira! Só tiramos esta vida como uma roupa que não serve mais. Não sabemos se vamos andar pelados depois, nem se vamos andar.

Não importa!

É o silêncio que queremos. O silêncio de Hamlet. É o que nos resta.

Não tenho forças nem para segurar a minha respiração e por conta seguir adiante. Mesmo que este adiante seja apenas um buraco com o meu nome.

Um nome que não mais importa.

De vez em quando alguém entra. Segura minha mão, chora e volta para a vida. Não sei quem veio e foi, se era amigo ou inimigo. Se cumpria algum ritual de remissão, algo feito para mostrar aos outros que se importa. Algo que lhe renderá algum crédito entre os vivos.

Vivos de uma história que não é mais a minha.

Já faz tempo que não sei se é dia ou noite, se é manhã ou se passou do almoço. Contava os dias com uma maestria de quem sempre cumpria um prazo. Calculava as horas, os minutos, sentia o tempo passar na medida exata para viver sem débitos. Mesmo que o tempo corresse mais que as minhas necessidades.

Agora isto não importa. Estou atrasado para minha própria morte.

Tudo o que fiz está feito, acabou é fato, fato está Fato!

Dizem que a morte nos chega como uma pessoa conhecida, que nos segura pela mão e suavemente a acaricia.

Retira de nossos corpos o que ela chama de alma, e deixa para trás o que nós sempre tínhamos como destino. Uma vida, que quando começou era repleta de possibilidades, de sonhos, de certezas que a energia inocente de quem começa sempre carrega.

No fim, esta senhora, só nos leva. Fechamos o livro e damos adeus a esta história.

Mas o Bip continua lá. Ele espanta esta senhora. Não me deixa fechar o meu livro. É meu livro, por qual motivo não me é permitido fechá-lo?

E o Bip continua.

Quando ainda insistia em viver, lembro de que havia uma janela. Ela ficava aberta. Lembro de quando sentia frio. Já não sei se está frio o calor. A linha que me segura a esta vida é tão tênue, que alguns sentimentos já não fazem mais sentido.

Não sonho mais. Só fecho e abro os olhos, sem saber quanto tempo se passou.

Um dia. Um ano? Muitos do que me esperam lá na outra sala já se foram. Morreram. Conseguiram? A máquina que me segura é uma só e só eu ainda estou aqui?

E se o mundo acabar? E eu ficar aqui preso por toda a eternidade? Seria este o inferno de que falam tanto? Ser proibido de morrer?

Já não me visitam mais. Esqueceram que ainda estou aqui. Quem sabe algum apagão elétrico não venha por misericórdia e desligue esta máquina e me deixe ir. Encontrar com o resto da humanidade, que já se foi. Pois esta máquina não conseguiu segurá-los.

Mas o apagão não vem. Fecho e abro os olhos e anos se passam. Séculos. Eras. Ainda existem humanos?

O bip ainda está lá.

Ele não é humano, é perpétuo. E me arrasta para este infinito. Os homens não foram feitos para serem eternos. Nossa mente não aguenta o infinito.

O bip ainda está lá!

E a porta abre. Uma luz invade a penumbra. Isto eu percebo. Alguém segue até o meu leito, olha a máquina com o seu bip. Segura minha mão, a coloca em meu peito. Chora.

Por favor. Só aperte algum botão e pare com este Bip infernal!

Ela aquece (aquece?) minha mão com a sua por alguns segundos e vai embora.

E o Bip continua lá.

O que estão esperando. Por que me impedem de apodrecer e me juntar a terra. Por que Deus não aperta aquele botão.

Não lembro de meu passado. Devo estar sendo punido por algum crime. Nem Deus que tudo pode, não pode apertar a porra de um botãozinho. De me deixar ir.

Amaldiçoo o dia em que inventaram a eletricidade. Séculos depois, a invenção maldita me devora o direito de não mais existir.

Esta máquina empurra minhas entranhas para cima e para baixo, dizem que isto é respiração. E um estupro do meu corpo. Um estupro deste corpo que já não é mais meu.

E o Bip ainda está lá. Bip, Bip, Bip …

É uma reticência mecânica, reta. Um vetor que me arrasta.

Uma luz acompanha este bip. Ela pisca com a mesma frequência da respiração deste demônio que me sopra a vida.

Desta luz consigo fugir. Meus olhos fechados são o último bastião de minha resistência. Você não me domina por completo. Ainda resisto.

Mas o Bip ainda está lá.

Um cabo de guerra de fios de seda. Tão finos e sutis quanto o aperto de um botão. Um fio fácil de se quebrar. Mas que se mantém pênsil no ar. Seguro por um pouco de vento, tão leve como uma asa de inseto. Isto é o suficiente para me manter eterno.

A porta novamente se abre.

Muitas pessoas se reúnem em volta da mesa.

– Tem como abrir a janela? Está um inferno aqui dentro.

Alguém repreende a voz. E mais e mais pessoas começam a chegar. Ninguém segura a minha mão. O frio entra. Estou sem roupas e as pessoas não param de entrar.

Ouço um choro. Algo vai acontecer. Sinto isso. De súbito uma criança começa a chorar. Seu som logo some. Alguém a levou embora. Ouço o meu nome. Não lembrava do meu nome.

Esta sopa de letras me traz lembranças. O nome segue à alguma oração. Está claro. Algo vai acontecer.

Eles se dirigem para a máquina. Olham entre si. Escolhem alguém. Alguém que me foi importante talvez.

Um outro(a) me beija. Passa a mão pelos meus cabelos. Sinto meu coração bater.

Luzes passam pelos meus olhos. Tomam meu pulso. Ele ainda está lá!

Ouve-se um click, o barulho de todos fica cada vez mais distante. Cadê vocês? Eu ainda estou aqui! Meu pulso! As luzes. Eu sinto frio! Me deem cobertas, me deem suas mãos! Ainda posso chorar, olhem os meus olhos!

E o bip, já não estava mais lá.

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