Reclamou em verso e deu certo!

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Luiz Carlos Garcia, morador de lago norte em Brasília seria só mais um consumidor insatisfeito não fosse à sua maneira inusitada de fazer a sua reclamação. Com um vazamento de água em casa, sua conta saltou de R$ 380,00 para R$ 1.150,00 de uma hora para outra. Conhecendo a fama do serviço público brasileiro, qualquer um faria uma carta gigantesca com os mais diversos palavrões e menções de mães alheias.

Mas não Luiz, ele decidiu fazer o que faz para os amigos, mandou sua reclamação em quarenta estrofes com quatro versos cada, seu filho chegou a desencorajá-lo, disse que não daria em nada. Ainda assim ele não desistiu, fez o poema e mandou.

Três dias depois, ninguém menos que que o vice-presidente da companhia ligou dizendo que o texto fora objeto de apreciação entre os diretores. A consequência: mandaram os técnicos para o local e constataram o problema e, óbvio, resolveram.

A história só por aí já seria um exemplo de que os caminhos mais educados, são um bom exemplo de cidadania. Mas a história ainda teve um desfecho à altura.

Aline de Freitas Santos, 46 anos, supervisora do escritório de atendimento de Brasília da Caesb, formada em letras, não deixou passar a oportunidade e mandou a resposta da carta também em verso.

E neste repente social, quem saiu ganhando foi a poesia. Abaixo na integra as duas cartas.

 

Confira a carta de Luiz Carlos na íntegra

Senhor Presidente

Venho mui respeitosamente à presença de vossa senhoria para apresentar e requerer o que se segue:

Venho à vossa senhoria

externar o que me aborrece

se não pode perseverar

aquilo que me entristece

 

O hidrômetro que marca e conta

a água que aqui consumo

é como fumaça que espalha

de um cigarro que não fumo

 

Desde que foi instalado

o novo tecnológico instrumento

a cada leitura nele feito

perco até os movimentos

 

Preocupado com a conta

que sempre me mostra aumento

até contratei uma empresa

que se diz caça-vazamento

 

Na verdade o que queia

na lucidez do momento

era encontrar uma forma

para estancar o tormento

 

E um trabalho dedicado

puseram-se os homens a fazer

na busca de saber se o indicado

eles poderiam resolver

 

Depois de muito procurar

em canos, válvulas e torneiras

disseram-me algo encontrar

que explicasse d’água a peneira

 

Puseram-se então a falar

na rede, este trecho é o problema

se os canos daqui, for trocar

resolvemos o seu dilema

 

Cem metros de cano comprei

cola, lixa e conexões

depressa do comércio voltei

atendendo as orientações

 

Fizeram toda tarefa

da rede modificar

depois foram-se embora

p’ra outras casas visitar

 

Grande foi a minha surpresa

que nem sei como contar

fui consultar o hidrômetro

e ver o que ele estava a marcar

 

Quando o olhei atentamente

com tudo na casa fechado

lá estava o renitente

a se mover, desesperado

 

Acreditar? já não podia

naquilo que ali, eu via

restou-me naquela agonia

me apegar n’alguma magia

 

Aqui moro sozinho

sem filhos, mulher, empregado

não lavo roupas, nem cozinho

só no banho, o líquido é usado

 

Nem para beber uso água

que da rede aqui deságua

das minerais me abasteço

e disso não guardo mágoa

 

Também não recebo visitas

que a água pudessem consumir

por isso procurar respostas

é no que preciso insistir

 

Minha casa é bem pequena

apenas cem metros quadrados

nela só faço dormir

e preservar meus guardados

 

Não levo os jardins a regar

nem carros eu deixo lavar

calçadas com a água esfregar

por onde esta água escoar?

 

Faxino a casa com balde

e um pano p’ra no chão passar

diz minha consciência em alarde

a água é p’ra se economizar

 

Uma coisa é verdade

que aqui preciso indagar

como pode uma só pessoa

tanta água no mês gastar?

Um mistério se formou

se esta água aqui entrou

se dela pouco se usou

a maior parte evaporou?

 

A vários vizinhos perguntei

e a pessoas que conheço:

da água que consomem por mês,

na conta vem qual o preço?

 

Quando minha conta os mostrei

consternação demonstraram

ao sentir o quanto assustei,

procure a Caesb, falaram

 

Até mesmo em casas grandes

de famílias numerosas

os valores lançados nas contas

não são de montas onerosas

 

Em outros tempos diria

quando a rede era antiga

mesmo achando água cara

a conta era bem mais amiga

 

Depois dessa rede mudada

p’ra outra que diferença não vi

me chega a conta inusitada

a cobrar o que não consumi

 

Recibos passados eu junto

para sustentar o que escrevo

pois como um bom cidadão

sempre pago o que devo

 

A Caesb é empresa séria

não há dúvidas que eu levante

então nesta minha história

o hidrômetro é o meliante

 

Sei que não posso acusar

se provas me estão a faltar

mais se a suspeição está no ar

é preciso investigar

 

Peço a vossa senhoria

que mande me socorrer

pois se a conta assim ficar

de infarto posso morrer

Com licença, peço aos peritos

dessa Companhia honrada

para o indivíduo estudar

e esta situação aclarar

 

Com suas técnicas e instrumentos

sobre o dito cujo, aplicados

saberemos se seu trabalho

é correto ou é viciado

 

 

Se inocente estiver

desculpas já devo pedir

mais recolhido deverá ser

se nele a culpa recair

 

Se comprovado, o erro for

de quem o consumo media

devolva-me com prontidão

o que paguei e não devia

 

Ou se preferir modo outro

proponho a vossa senhoria

descontar o tal valor

quando faturar a Companhia

 

Pois se assim não for feito

outro caminho não há

se não o de ir a justiça

o meu direito reclamar

 

Rogo vossa senhoria

uma providência tomar

pois não é justo essa conta

eu ter que continuar a pagar

 

 

Assim, deixo o meu pedido

em forma de poesia

se escrever é uma arte

que me enche de alegria

 

E, antes que se faça tarde

neste tempo, o que pronuncia

antecipo meus agradecimentos

junto a vossa senhoria

 

Como nos ensina a lição

que nos vem d’antigamente

despeço-me no último verso

com um gentil, cordialmente.

 

A resposta de Aline de Freitas, da Caesb

Sr. Luiz Carlos

Em resposta à sua manifestação

Sob o n. 1.723/2016 protocolada

Na qual nos chamou atenção

O brilhante uso da nossa língua falada

Vimos pelo presente documento

Apresentar os resultados apurados

Na esperança de que com esse intento

Encerremos os seus desagrados

 

A fim de verificar

A situação apresentada

Pusemo-nos a vistoriar

As instalações internas afetadas

E eis que ficou constatado

A ocorrência de um vazamento

Comprovadamente sanado

No mais curto espaço de tempo

Para assegurar um fornecimento

Contínuo, lhano e escorreito

Fora instalado um equipamento

De precisão, em seu conceito,

E ao fim de 58h constantes

Registrou o importante instrumento

Não haver na rede pressões variantes

Que provocassem um derramamento

 

Desta forma, concluímos que o vazamento

Ocorrido em sua residência

Tratou-se de um fortuito acontecimento

Lamentável em sua essência

E, atendendo a Resolução da Adasa

Que norteia os procedimentos desta Casa

Foram concedidos os descontos possíveis

Aos casos de vazamentos imperceptíveis

Estão creditados para os próximos faturamentos

Valores resultantes das revisões das contas

Limitadas a dois consecutivos eventos

Com prazo de 12 meses para nova remonta

Mas sabendo dos hábitos conscientes

Por V. Sª praticados

Certamente não será recorrente

O evento outrora cessado

 

Pessoalmente quero aqui registrar

Minha admiração e meu mais profundo respeito

Posto que, lamentavelmente, não é comum encontrar

Quem faz do uso da palavra um belo feito

Compartilhando da mesma paixão

Me despeço com leniência

E digo com admiração

Receba minha reverência

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