Futuro mais que imperfeito

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Amanheceu e o dia não começou. O padeiro não fez o pão, o pedreiro não subiu a parede, o carteiro não levou as cartas e os que tinham o que fazer nada fizeram, não por impossibilidade, mas por opção. Sustentados por planos de governo valia mais ficar em casa recebendo subsídios a arriscarem seu tempo ou capital em uma atividade remunerada, já que a inatividade tinha sua devida remuneração.

Ninguém arriscava mais, ninguém prestava serviços ou simplesmente prestava, já que viver das tetas do governo não era agora um privilégio só dos políticos, muitos começaram com uma forma de protesto, mas no final era fácil se acostumar com o nada. Nada para fazer, nada para ser cobrado, nada a cobrar e nada a se esperar. Deixe os políticos politizarem, vou sentar aqui e nada, não se prende um eleitor necessitado que tenha o seu voto devidamente comprado à troca de nada. Pensavam assim todos e estavam certos.

E o governo? O governo ora pois estava em uma sinuca. Se ninguém trabalha quem vai pagar a conta? E a conta não fechava, mas como obrigar a trabalhar quem simplesmente não quer?

Vamos cortar os benefícios? Mas a bolsa é o carro chefe do governo? Quem vai ser o precursor deste corte? Quem vai jogar os necessitados nas sarjetas do destino, mandar crianças para a fome? Não serei eu, dizia o(a) presidente. E o benefício continuou.

De início os cofres públicos sustentaram os pagamentos, que eram religiosamente cobrados pela população, ávidas por dinheiro em troca de nada. Adultos jovens e velhos se arrastavam aos bancos devidamente informatizados, pois nem bancários havia mais para receber o benefício.

Zumbis monetários levavam seus quinhões mês após mês apesar de não terem onde gastar, já que não tinha ninguém para produzir algo que podia ser comprado. E o benefício foi trocado por comida, o governo não podia deixar de ajudar os necessitados e como o dinheiro não valia mais nada a solução foi dar o alimento diretamente para o faminto.

Os políticos eram os únicos a “trabalhar” e coube a esta casta privilegiada pagar as contas. Esvaziariam os cofres públicos de início e pessoais mais a frente comprando comida de outros povos até que um dia eles também entraram para o programa do governo por ficarem até mais pobres que o mais necessitado do povo.

Maltrapilhos desceram o planalto descalços, pois os sapatos já haviam se desgastado há tempos e como não tinham quem fizessem novos, os velhos se foram sem deixar filhos.

Todos os políticos, ou pelo menos os que aguentaram, se arrastaram para fora dos grandes prédios, já sujos e descascados, sentaram na sarjeta e não fizeram nada.

E com o nada estava mais em alta do que nunca, ficaram lá ao relento e lento eram os dias.

A nova fase da existência quase existiu como se ela não estivesse lá, era invisível, indizível, nula e perene. O sol subia, descia e nada. Pessoas dormiam, acordavam, não comiam a comida que o governo não mais dava por total falta de recursos e voltavam a dormir.

Até que um dia ninguém mais acordou, o mato cresceu e fez sua parte já que ele não era governo nem povo e nem condicionado a uma existência previamente paga, por isso cresceu e tomou as casas, os prédios, os carros e até os sapatos velhos largados pelos cantos deixados pelos lixeiros desaparecidos há muito.

E durante muito tempo tudo que se via era nada e mato, mato e nada.

Um dia, como qualquer outro dia, surgiu um macaco que não era povo nem governo, que macaco não tem governo e o povo é o bando onde cada um cuida do outro e da sua vida.

Este macaco subiu uma árvore, sem subsídios, sentou se no galho que não era público nem privado, e pegou a banana. Ficou feliz por ter matado sua fome sem precisar de ninguém.

 

 

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