Balas perdidas

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A noite virou dia e as balas ainda davam sinal de vida. O calor no barraco era insuportável. Ainda assim eles dormiram, ou pelo menos tentaram, com as cabeças cobertas. Não que uma bala fosse impedida por um monte de pano, mas o som ficava um pouco menor. Pareciam moscas cortando um céu de ninguém. Não tinha autoridade que desse conta de proteger mãe, criança ou ele.

Nabuco, quarenta e dois anos. Muito tempo para ficar vivo naquele lugar. Era um homem de sorte. Até aquele dia. Fazia um tempo que as balas zumbiam, um tempo que levou o que restou da sua sorte, da sua paciência. Pernambucano nascido em pau preto, um canto de mundo no ceará que nunca sonhou se tornar porra nenhuma, aporretou-se. Sem história para tirar da sua testa a marca da covardia, criou na sua mente um pensamento. Falou com voz grave.

— Iara. Vou lá fora.

— Você não é bandido, nem polícia. O que vai fazer lá fora além de levar um tiro?

— Tem dois dias que os tiros não param. Tem o moleque e você que não tem a que comer. Se a bala não matar a gente, a barriga vazia vai.

— Nabuco, levá um tiro vai matar todos nós do mesmo jeito. Se tu for, será só mais um morto.

— Se não for, não serei nem um homem. – Nabuco disse suas palavras e acariciou o ventre já crescido de sua esposa. A mão que tocava tremia, relou de leve para não assustar a cria que ainda não tinha nascido. Mas ia! Se dependesse de Nabuco ia nascer!

O barraco tinha pouca luz, apesar de já ser dia. Tinha a janela, que estava fechada. Tinha a porta, que estava trancada com um pedaço de madeira que cruzava de um lado para o outro, preso por duas armações de ferro bem pregadas à parede. Nabuco só tinha que puxar a madeira e seguir o seu caminho. Não tinha ideia de como ia conseguir comida, se ia conseguir comida. Só tinha uma coisa na cabeça, precisava fazer alguma coisa.

Ninguém falou nada quando ele puxou a tranca. Ela saiu fácil, escorregou para o lado com a mesma facilidade que a gadanha da morte poderia levar o seu pescoço. Um vupt, uma cortada de vento e a morte já te pegou.

A porta se abriu devagar, na cautela. Uma bala não precisava de uma porta aberta para passar, mas gente sim. Bala quando entra só mata, já gente faz mais. Deixa neguinho vivo, e estar vivo pode ser uma grande merda.

Ver tua mulher de ventre largo na mão de outro. Ver teu filho de escudo. Ver tua honra de homem ser mastigada. Ver tudo e ficar vivo. É pior de que bala. É levar a guerra pra dentro da cabeça e deixa lá para sempre.

Quando a porta se abriu, entrou muita luz no barraco. O moleque tapou os olhos, como a mãe. Nabuco deixou os seus abertos, não tinha tempo pra vacilo. Botou o pé pra fora e sentiu no chão um pedaço de lixo diferente dos outros lixos.

Ainda quente uma pistola. Nabuco não entendia de armas, não entendia nada de atirar. Mas aquela no chão ainda estava quente, tinha sangue. Tinha bala. Se tava quente e tinha bala, dava pra usar. Não estava travada. Talvez esta fosse a única coisa que ele soubesse sobre as armas. Não era só pegar e atirar. Ela tinha que estar armada. Como estava quente e tinha sangue, estava sendo usada até a hora que o desavisado se fudeu. Se não estava morto ia ficar. De arma na mão mandou fechar a porta. E de arma na mão seguiu chutando o lixo, sabia que as porras das balas iam continuar zumbindo, mas agora as suas iam se juntar ao monte. O ar estava quente, tinha cheiro de muita merda, gente quando morre cheira a merda. Nabuco seguiu o barulho dos tiros, tinha muita bala, mas cara de gente não vinha nenhuma. Ele era um bicho na selva caçando qualquer coisa. Nessa guerra não tinha lado, essa era parte boa. Podia matar qualquer um.

Depois de andar um tempo sem ver uma cara para tirar da vida, decidiu mudar de pensamento. Achou um canto, uma viela, qualquer bosta de lugar. Sentou no chão e fechou os olhos. A agua cheia de merda descia o morro. Todas as portas estavam fechadas, no chão separou o som das balas e procurou qualquer coisa diferente. Ouviu criança chorando, gente rezando, cachorro latindo. A arma quente em sua mão pesou, sentou com ela no chão, junto da sua mão. Estava agora caçando com a cabeça. Com o nariz. Com os ouvidos. Sua cabeça estava longe. Lá no chão seria só mais um morto, mas estava caçando. Ouviu gente falando merda. Gente passando comando! Pegou a direção. Já ia abrir os olhos e pegar o rumo dos filhos da puta quando alguém pegou a sua mão da arma.

Não pensou, levantou, apontou e atirou. Tudo antes de abrir os olhos. Um único tiro, e os olhos se abriram. Era a porra de um moleque. Estava deitado no chão. A cabeça se misturava com a bosta do córrego. Moleques não deviam sair quando tem merda no ar. O dele estava no barraco. Você não devia estar aqui. Pensou Nabuco. Ele sabia que até o final do dia teria muito filho da puta esticado num chão, num lugar de onde não deveria estar.

Já tinha um tempo que ele não se sentia bem em lugar nenhum. Vai ver era como o moleque deitado no chão. A única diferença entre os dois era que o moleque tinha uma bala na cabeça. No meio de uma guerra com uma arma na mão, se é meio livre, pensou Nabuco. Pode ir para qualquer lugar, e se não tem lado, também não tem lei nem destino.

Vou seguir a voz, foi o seu pensamento. Depois disso… Completou este rabo de pensamento com uma sensação. Um sentimento de vazio, de oco. Faltava o depois.

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