A obscena Senhora D – Hilda Hilst

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Como começar a falar desse livro? A obscena Senhora D é um livro com uma narrativa peculiar, mistura diversas técnicas literárias e ao mesmo tempo desafia todas elas. Em resumo: é uma viagem.

Eu tive a mesma sensação quando li as Ondas de Virgínia Wolf e A Paixão segundo G.H. da Clarice Lispector, o texto não segue uma narrativa linear, ele funciona como o fluxo do pensamento onde quem responde, quem pergunta e o próprio tempo se confundem em uma reverberação neurológica que se você não se envolver ficará sem chão.

Mas não tem como não se envolver, o texto mantém a sua energia em cada página. O que é difícil para quem escreve desta forma, desapegado de uma história linear. Este universo onde a palavra é o meio e o fim, se manter consistente é uma aventura para poucos.

E a História?

A História fala de Hillé, que perde seu marido e se refugia em sua casa, no vão de uma escada. Ela aparece na janela com suas máscaras e assusta a população local, que chegam a falar de possessão demoníaca, aliás estas aparições externas são um momento de respiro no livro, onde você pode digerir tudo o que veio antes, é uma espécie de presente de Hilda, que parece perceber a necessidade destas fugas.

Hillé, como disse, se refugia no vão da escada e cuida de peixes de papel em seu aquário, que são trocados quando se dissolvem. Ela se prende a um degrau da sua existência e navega por suas lembranças, os peixes que dissolvem são fugazes como os pensamentos, como as lembranças, como nossa presença no passado e no fino momento que é o presente.

Hilda Hilst

Hilda Hilst é uma escritora poderosa, não tem medo de se arriscar nem de não ser compreendida, ela trabalha o seu texto como se ele fosse físico e seus dedos pudessem deformá-los ao seu bel prazer, e se deformam.

Imagine um artista plástico esculpindo uma obra e enfiando esta estátua na sua cabeça, pelas orelhas, nariz e boca. Esta é a obra de Hilda, ela é física, mexe com as suas sensações. Ela distorce a própria gramática, até a ortografia, transforma mármore em madeira, curva os elementos, te tira da cadeira e ainda faz gostar disso.

Sua linguagem pega pesado, é como tomar dois copos cheios de absinto num gole só, não se consegue ficar de pé.

A senhora D, foi o meu primeiro livro de Hilda. Valeu a porrada!

Boa leitura!

É para se ter na estante!

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