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Sentado em um café acompanho uma formiga andando sobre a mesa que se divide em duas partes. Ela para no que seria um grande abismo. Um vão com menos de um centímetro é uma barreira intransponível para este inseto. Pernas pequenas demais? Este mundo não é para você! Suas patas diminutas dão meia volta e levam o pequeno corpo para embaixo da mesa.

 

Esqueço a formiga e ando até a praça principal para o grande acontecimento. Pela primeira vez dois mundos estariam unidos em tempo real através de um imenso monitor digital, que tem a função de transmitir para um lado exatamente o que acontece do outro. Um portal bidirecional para novas realidades.

 

O investimento foi gigantesco. A nossa cidade foi escolhida entre centenas para fazer parte da história. Dinheiro, tecnologia e vontade política: uma combinação improvável entre cientistas e burocratas.

 

Cá estamos nós! Esperando o prefeito fazer a inauguração da grande obra. Para nossa surpresa parte da tela, que estava coberta por uma manta lilás, é descortinada e o prefeito da outra parte faz o discurso. Imagino que o mesmo esteja acontecendo do lado de lá. Muito original.

 

Depois de uma hora de um falatório interminável, o monitor é descoberto por inteiro e um show é exibido. Com certeza vão acabar usando este enorme aparato como canal oficial de notícias do governo.

 

Terminado o grande show. A realidade tem início. Pessoas dos dois lados se aproximam da tela. Povos tão diferentes agora podem se comunicar. O áudio multi-faixa não foi instalado por dificuldades técnicas, mas podemos compartilhar arquivos e o tradutor simultâneo decodifica tudo o que for transmitido.

 

Procuro não me misturar. Passo aí outro dia, quando a multidão já cansar de dar tchauzinho para um monte de desconhecidos.

 

Uma semana e a novidade já caiu no comum, pessoas passeiam, olham e andam. Às vezes algum arquivo é baixado, perguntas são feitas, respostas recebidas. O sistema é interessante, basta tocar na tela que o leitor de DNA acessa sua cloud e os arquivos podem ser compartilhados.

 

O governo nos obrigou a participar desta experiência. Me aproximo e deixo uma mensagem gravada na tela, uma careta com chifres. “Acho que ninguém vai entender do outro lado”. Vou embora sorrindo, eu não vou ser um rato neste laboratório.

 

No final da tarde decido voltar para ver qual a reação do outro lado. Para minha surpresa o meu arquivo havia sido baixado e no lugar da careta: Um dragão com língua de cobra. Há alguém do outro lado disposto a mexer com as bases da história, sem comunicados sérios, só uma diversão básica.

 

Curioso posto uma nova mensagem “Adamo”. Me afasto e fico esperando para ver quem aparece. Meia hora depois uma garota de cabelo azul caminha até a mensagem suspensa no ar. Faz o download. Não perco tempo e me aproximo. Os olhos dela são de um tom de azul que brinca com o violeta, contrastando com a pele pálida.

 

Ela não se espanta com a minha presença, pergunta se eu escrevi a mensagem,

confirmo .

 

“Cadê Adamo!” É engraçado vê-la digitar no ar. O sistema de tradução deve estar com defeito.

 

“Eu sou Adamo, é meu nome!”

 

Ela ri… “Aqui Adamo é cachorro!”

 

Desenho uma cara vermelha e pergunto seu nome. “Lilith”.

 

Entre conversas coradas e mensagens desenhadas, vejo que o lado dela começa a anoitecer. É preciso ir embora. Marcamos de nos encontrar no dia seguinte, e depois no outro e assim semanas se passam.

 

Hoje ela me apresentou um amigo menor, e uma frase “Irmão”. Estou sendo apresentado à família, está ficando sério. Penso em digitar, mas acho melhor guardar a brincadeira só para mim.

 

No dia seguinte trago meu cachorro. “Este é o meu Adamo!”. Ela ri um riso maravilhoso. A noite sonho com sua boca.

 

Recebo aviso de que o sistema de fotos foi ativado, vou correndo contar a novidade. Para tirar uma foto só precisamos marcar o espaço com as mãos. Peço permissão para fotografar, ela fica imóvel, inclina o seu rosto para frente, eu acaricio os pixels da tela. É como se eu realmente a tocasse, posso sentir o calor que pulsa sob meus dedos, toco o cabelo azul, ela fecha os olhos como se pudesse me sentir.

 

Lilith levanta sua mão e também toca a tela, em um breve momento toda a distância se perde. O espaço não existe. Sinto sua pele como eu sei que ela sente a minha. Foi a melhor foto que tirei em toda a minha vida.

 

Não sei quando poderei me encontrar com ela fisicamente, a distância é muito grande. Talvez se eu mandar uma carta para o prefeito… Quem sabe ele não consiga descobrir uma forma de nos vermos de verdade, sem a tela.

 

Quando chego na praça percebo que a Lilith está nervosa, tento acalma-la, ela não digita nada coerente.

 

“Aviso… Oficial… Fim…”

 

Tento decifrar o que ela quer dizer, vejo uma lágrima em seu rosto.

 

“Não tempo… Fim… Todos…”

 

“Desculpe, não estou entendendo, o tradutor deve estar com defeito!”

 

Ela começa a desenhar no ar. Só então percebo o que ela quer dizer. O céu começa a escurecer e uma grande bola de fogo rasga aquela atmosfera amarelada. Olho para Lilith. Por um segundo tudo congela. Seus olhos, lágrimas, seus olhos… Lilith…

 

E tudo fica escuro, o que ela escreveu ainda está gravado na tela. O fundo é escuridão. Com o sistema interrompido o computador não consegue traduzir a escrita.

 

Fico parado o tempo escorre pelas minhas mãos, olho para a tela, baixo o arquivo. Tudo o que sobrou de um planeta que agora não existe mais foi um fundo negro e um texto não traduzido. Milhões de quilômetros e onde havia vida, agora o negro profundo.

 

Sem ter para onde ir, me sento no café. Reencontro a velha formiga que está novamente em frente ao abismo. Distâncias intransponíveis. O que podemos fazer quando o universo é muito maior que nós? Ajudo a formiga a cruzar o outro lado.

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