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A manhã chegou chuvosa. O teto de papel que me cobria se juntou ao chão de terra.

Fui acordado antes que o dia ficasse claro. Pessoas passam e batem o pé no chão, levantando água. Não que faça diferença, já estou molhado.

Me encolho buscando algum calor. As pessoas que batem os pés no chão e levantam água, tem para onde ir.

Eu só me encolho. Invisível sou visto apenas pela chuva. Pelo frio.

O frio me chama uma tosse. A tosse não para. Depois chama uma dor, que vem junto e fica.

Já é difícil me encolher. Não tem mais espaço. O meu corpo já deu. Não se fecha mais do que isso.

Forço, encolho a barriga, um pé, outro. Puxo com a mão. O frio vem junto.

Os pés ainda batem. Ninguém me vê.

Estou tremendo, faz tempo.

Estou sozinho, faz tempo.

O dia nem começou.

E eu terminei.

Uma voz me chama.

– Oi meu bem.

Minha mãe que vem.

Faz tempo que eu não via minha mãe.

Vou com ela. Deixando um encolhido.

Que já não sente mais frio.

E os pés ainda batem no chão.

 

*Miniconto baseado na menina dos fósforos de Hans Christian Andersen

2 Respostas

  1. Sensacional! Belo encapsulamento do lirismo contido de “A Menina dos Fósforos…”, sem a catarse, apenas representação. Parabéns!

  2. Sylva, seu comentário vem em uma hora fantástica. Obrigado.

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