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O frio da parede que eu estava encostado umedecia a minha camisa, ela não segurava o calor do meu corpo, que com vontade própria escolhia outro lugar para ir.

A janela tinha só as armações de madeira que um dia seguraram vidros. Um fino lençol se agarrava ao meu corpo, compelido a ficar naquela posição pelas minhas mãos que tremiam.

O lençol cobria meu rosto, fazia uma volta em minha cabeça deixando somente os olhos de fora. Assim eu conseguia ver boa parte do quarto. Mas o que mais fixava minha visão era o que via fora da janela sem vidros.

Pés passavam de um lado para o outro. Saltos alto, sapatos de couro, alguns brilhantes.

Pelos pés conseguia perceber quem estava passando.

Uma mãe com um carrinho de bebê. Até a roda do carrinho cheirava a luxo, tinha aros de um metal brilhante, não fazia barulho quando rodava. O meu colchão era de molas. Fazia muito barulho, mas segurava a água longe de mim.

Um outro pé apareceu. Um bonito sapato acompanhado de uma muleta. O pé saltava e saltava. Pulou uma poça de água, outros pés vieram logo atrás, batendo forte na poça, que entrou pela minha janela sem vidros.

Mais um par de sapatos, este era acompanhado de um cachorro. Que parou, cheirou e deixou um monte de merda, perto da minha janela, sem vidros.

E os pés andavam e andavam e andavam. Sortidos como balas em um baleiro, de cores e sem cores, de brilhos que os faziam parecerem caros.

Cheguei a contar cem pés em um só dia!

Às vezes esquecia das minhas paredes, que molhadas fediam. A água que escorria puxava para baixo alguma coisa verde que cresceu do teto e agora procurava um lugar para se deitar no chão. No meu chão.

Tinha um par de sapatos, só meus. Ganhei quando ainda andava pelas ruas, presente de um desconhecido. Era meio brilhante, a sola meio fina, mas tinha cadarços, eu os amarrei com força.

Sai para a andar, ainda me lembro. O dia estava bonito, cheirava bem. Fui andar nos campos. Não vá diziam os amigos.

Mas eu fui. Nos campos que sobreviveram aos guerrilheiros. Fui com os meus sapatos ganhados.

Havia bombas enterradas no chão. Elas não foram feitas para matar, era o que diziam. E não mataram.

Quando pisei em uma, ela arrancou os meus dois sapatos, e com eles foram mais, muito mais.

Eu era novo, quando sai para passear. Hoje tenho paredes e uma janela sem vidros. E muitos pés, e os meus dois sapatos vazios.

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